O caso Banco Master não é apenas mais um escândalo financeiro. Ele representa, na visão da autora, a maior fraude da história recente do país, não por quem pagará a conta — essa, em grande parte, será coberta pelo Fundo Garantidor de Créditos, financiado pelo próprio mercado privado —, mas pelo impacto direto causado à máquina pública brasileira.
O episódio escancara uma verdade que vem sendo adiada há muito tempo: o Brasil atravessa uma profunda crise de legitimidade, marcada por um arranjo institucional em que os três Poderes operam de forma inconstitucional e desequilibrada.
Ninguém sai ileso desse processo. Em um ano eleitoral, o caso se transforma em munição política, potencializando disputas e agravando a polarização.
Legislativo e Executivo: embate público, acordo nos bastidores
O ano de 2025 ficou marcado pelo conflito explícito entre Legislativo e Executivo. De um lado, um Congresso descrito como hostil à população e alinhado a interesses próprios e de seus aliados. De outro, um governo dividido entre práticas populistas e um discurso voltado exclusivamente ao interesse público.
Na prática, porém, essa oposição se dissolve nos momentos decisivos. No fechamento das contas públicas e nos acordos orçamentários, ambos apertam as mãos, revelando que o embate muitas vezes se limita ao campo retórico.
O STF como árbitro da política
A crise acabou sendo empurrada para o Supremo Tribunal Federal, que passou a exercer um papel de mediador e definidor da política brasileira, extrapolando, segundo a autora, suas atribuições constitucionais.
Essa atuação se insere em um contexto de concentração de poder, que abre espaço para arbitrariedades. Diante da necessidade de preservar a credibilidade das investigações, a permanência do ministro Dias Toffoli como relator do caso é colocada em xeque, especialmente em razão de seu envolvimento direto com Daniel Vorcaro.
Na leitura política apresentada, há indícios de que essa permanência não é casual. Mesmo sob pressão de ministros do STF, do governo e da oposição, o relator se mantém de forma estratégica, contribuindo para inflamar o debate e aprofundar a polarização em torno do caso Master.
Narrativas, acusações e o risco da impunidade
O cenário aponta para a iminência de uma delação premiada, enquanto acusações começam a surgir em todas as direções. O caso se transforma em um grande “disse‑me‑disse”, no qual quanto mais culpados aparecem, maior é o risco de que ninguém seja efetivamente responsabilizado.
Esse é o momento de disputa de narrativas, o que torna fundamental o acompanhamento atento e informado dos fatos.
Nomes oficialmente investigados ou denunciados
Até o dia 29 de janeiro, os nomes políticos com envolvimento direto no caso, segundo investigações da Polícia Federal, incluem:
- Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, responsável pelos contratos do BRB com o Banco Master;
- João Carlos Bacelar (PL), deputado federal, com documentos apreendidos relacionados a contratos diretos com o banco;
- Cláudio Castro (PL), governador do Rio de Janeiro, que aplicou recursos do Rio Previdência em títulos do Master mesmo ciente dos riscos;
- Ciro Nogueira (PP), senador e amigo pessoal de Daniel Vorcaro, autor de emenda que ampliou a cobertura do FGC, beneficiando o Banco Master;
- Ministro Lewandowski, que manteve contrato de consultoria jurídica com o Banco Master por meio de seu escritório pessoal, inclusive após assumir o Ministério da Justiça em 2024.
Além dos nomes políticos, há ainda a citação da esposa do ministro Alexandre de Moraes, cujo escritório de advocacia teve contrato com o Banco Master encontrado entre os documentos pessoais de Vorcaro.
Uma teia de blindagem institucional
Para a autora, Daniel Vorcaro sabia exatamente o que fazia. O objetivo não era envolver todos diretamente no esquema, mas construir uma ampla rede de blindagem em Brasília.
Ao distribuir recursos e relações entre as três instâncias de poder, criou‑se uma estrutura de proteção política tão sólida que o caso permanece, até hoje, sob sigilo.
O que se revela, mais uma vez, é a impunidade estrutural da elite brasileira.
O papel do mercado privado
O episódio também expõe a contradição de um mercado que se autodeclara liberal e independente, mas que recorrentemente se associa à máquina pública da pior forma possível.
Não para promover crescimento, inovação ou reinvestimento estrutural no país, mas para alimentar politicagem, corrupção e crimes contra o Estado.
Conclusão
O caso Banco Master não é um ponto fora da curva. Ele é um sintoma de um sistema político em colapso de legitimidade, no qual poder, dinheiro e interesses se entrelaçam de maneira opaca.
Diante disso, resta à sociedade acompanhar, questionar e se manter informada — porque, quando tudo se dilui em narrativas, a impunidade deixa de ser exceção e passa a ser regra.
Isadora Brizola
Socióloga | Analista Política e Econômica
Isadora Brizola é socióloga e analista política, influenciadora nas redes sociais com atuação voltada à divulgação de análises críticas sobre sociologia, política e questões sociais contemporâneas, com linguagem acessível e fundamentação técnica.