Quase 70 pessoas já perderam a vida. Mais de 20 estados estão em chamas. E tudo isso a partir da morte de um único homem.
O que está acontecendo no México não é simplesmente a morte do traficante mais procurado do país. É mais do que isso. E essa realidade pode nos ensinar, ou pelo menos nos alertar sobre algumas coisas no Brasil. O “Mencho”, como era conhecido, era líder do Cartel de Jalisco Nova Geração, um dos principais cartéis mexicanos, responsável por enviar toneladas de metanfetamina e fentanil para os Estados Unidos. Após sua captura, ele foi morto por agentes das Forças Especiais Mexicanas.
A resposta do cartel foi imediata.
Ataques coordenados em mais de 20 estados do México. Assassinatos. Ataques contra civis. Armadilhas contra integrantes das forças de segurança pública. Incêndios. Pregos espalhados pelas rodovias.
Até o momento, mais de 25 mortos da Guarda Nacional Mexicana e mais de 2.500 militares enviados como reforço.
Isso não é uma reação improvisada. Isso é capacidade organizacional. É governança criminal.
Governança criminal
O Cartel de Jalisco demonstrou três coisas: controle territorial, capacidade de mobilização simultânea e a possibilidade concreta de enfrentar nacionalmente o Estado.
Quando uma organização consegue paralisar rodovias, realizar ataques simultâneos e impor medo generalizado, isso deixou de ser, há muito tempo, apenas tráfico de drogas. Isso é estrutura paralela de poder.
E o Brasil precisa olhar para o México com atenção.
PCC e CV já demonstraram algo semelhante por aqui. Ou já esquecemos os ataques coordenados de 2006, os chamados “ataques de maio” do PCC? Não vemos paralisações e toques de recolher em comunidades? Não há controle territorial em áreas do Rio de Janeiro?
Há regulação de mercados ilícitos no país. Há interferência em contratos públicos, transporte público, fundos de investimento, franquias, combustíveis.
Quando o crime vira sistema
A morte de Mencho não vai acabar com o cartel no México. Assim como a prisão de lideranças no Brasil não resolve o nosso problema.
Porque quando o crime vira sistema, ele deixa de depender de um homem.
A pergunta que fica é inevitável: essa realidade do México está realmente tão distante assim da nossa?
Murillo Ribeiro
Delegado de Polícia | Professor de Direito Penal, Criminologia, Inteligência Policial, Legislação Penal | Autor | Palestrante | Pesquisador
Murillo Ribeiro é Delegado de Polícia em Minas Gerais, mestre e doutorando em Direito Penal pela PUC Minas, especialista em Ciências Criminais e Inteligência de Segurança Pública. Atua como professor e coordenador de pós-graduação, exerceu cargos estratégicos na área de inteligência estadual e integra conselhos e comitês nacionais ligados à segurança pública e combate ao crime organizado.