Veja como uma única eleição muda absolutamente tudo.
Se Kamala Harris tivesse vencido Donald Trump, muito provavelmente Nicolás Maduro continuaria no poder na Venezuela. Pensando no cenário doméstico brasileiro, se Jair Bolsonaro tivesse vencido Lula, hoje não estaríamos vendo empresas numa corrida desenfreada para antecipar dividendos como forma de evitar a tributação de seus sócios.
O voto muda completamente a dinâmica social, econômica e política de um país. E isso se amplia quando estamos falando do líder da maior potência do mundo.
O mundo reage ao Trump show
Depois da ação americana, vimos uma série de declarações de líderes mundiais. Do presidente brasileiro, do presidente argentino, de Vladimir Putin, de Xi Jinping. Todos disseram exatamente o que se esperava. Nada fora do script. Donald Trump, por sua vez, parece muito mais preocupado com as próprias declarações ao povo americano e com a repercussão delas.
A verdade é que pouquíssimas pessoas dominam a mídia e a captura da atenção como Trump — e ele faz isso com maestria. Basta lembrar quando ele fez sua chamada “declaração de independência”, no Dia da Independência. Ele fez o mesmo quando os Estados Unidos atuaram no Irã e agora, novamente, quando os Estados Unidos atuaram dentro da Venezuela.
Trump consegue pautar diariamente a imprensa mundial. Se você abrir os principais veículos de comunicação do planeta, a primeira página traz o nome dele. “Donald Trump’’. Estados Unidos atacam a Venezuela e capturam Nicolás Maduro. Qual é o ponto central de Trump? A imprevisibilidade. Muitas vezes ele blefa. Diz que vai fazer e não faz. Essa imprevisibilidade dificulta qualquer tipo de trato com ele, porque nunca se sabe exatamente como, quando ou se ele vai agir.
A aposta de Maduro
Maduro apostou que Trump não faria nada. Apostou errado. Houve, sim, uma saída negociada pensada, discutida. Mas o fato é que se tem hoje a prisão do presidente — agora ex-presidente e ex-ditador venezuelano.
Fica a lição: não se aposta em blefe quando o outro lado é muito mais forte do que você.
O Brasil assistiu da arquibancada
Do ponto de vista sul-americano, precisamos entender algo fundamental: não existem espaços vazios na geopolítica. O país líder da América do Sul é o Brasil. Mas o Brasil não vem exercendo essa liderança.
As últimas eleições venezuelanas foram claramente sabotadas. Houve uma usurpação de poder com a continuidade de Maduro. Qualquer pessoa séria e decente sabe que Edmundo Gonzales venceu as eleições. Todo mundo sabe. Ainda assim, o Brasil foi incapaz de condenar a ação de Maduro, de não reconhecer seu mandato, de dizer claramente que o verdadeiro vencedor foi González.
Pelo contrário: integrantes do partido do presidente da República chegaram a parabenizar a Venezuela por eleições limpas. Isso é inaceitável. Não é sério, não é correto, não é justo, não é democrático.
Não dá pra passar pano
Ou você defende a democracia e condena Nicolás Maduro, ou faz o inverso. Não dá para defender a democracia e passar pano para Maduro ao mesmo tempo.
Mais uma vez: não existem espaços vazios. O Brasil deveria ter uma postura muito mais firme e forte na América do Sul — e não tem. Parece que estamos ultrapassados em termos de geopolítica regional. Precisamos de líderes capazes de construir pontes, mas também de impor autoridade e peso quando o Brasil está na mesa.
No mundo real, vale a força
No mundo ideal, Donald Trump não deveria ter invadido a Venezuela. O correto seria Maduro ter deixado o poder respeitando o resultado eleitoral. Esse seria o cenário ideal. Mas no mundo real, na vida como ela é, a única forma que se mostrou eficaz para tirar Nicolás Maduro do poder foi a ação americana.
Do outro lado do mundo, líderes com poder semelhante ao de Trump são Vladimir Putin e Xi Jinping. Ninguém imagina que eles observarão rigorosamente as regras do direito internacional quando algo for crucial para os interesses de seus países. Também ninguém imagina que os Estados Unidos estejam preocupados apenas com a democracia venezuelana. É óbvio que há outros interesses por trás.
Ainda assim, se como efeito colateral isso puder devolver a democracia ao povo venezuelano, há esperança. É isso que vemos nas ruas de Caracas: o povo vibrando dentro de seus prédios, dentro de suas casas, ainda com medo, mas vibrando. Sons que tomam conta das ruas pela queda do ditador.
Fica a lição
O que precisamos entender, no mundo e na vida, é que não existe nada estável. Tudo pode acontecer. Tudo muda o tempo inteiro. No Brasil, já vimos ex-presidiário se tornar presidente e ex-presidente se tornar preso. Quem acha que não pode cair, saiba: pode cair.
Por isso, é fundamental manter a humildade e as portas abertas. Criar inimigos raramente é o melhor cenário — esteja você no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, na América Latina, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar do mundo.
E que possamos torcer pelo melhor para a Venezuela.
Quem confia apenas no tempo aposta na sorte; quem domina o método e a estratégia decide o resultado antes do jogo começar.
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Samer Agi
Professor, advogado, ex- juiz, ex- delegado e criador de conteúdos jurídicos.
Por muitos anos, Samer Agi exerceu a magistratura, trajetória marcada pelo uso da toga, do terno e da gravata. Há cerca de três anos e meio, contudo, tomou uma decisão determinante em sua vida profissional e pessoal: pediu exoneração do cargo de juiz de direito para seguir um novo caminho, Samer Agi é professor e cofundador do CP Iuris, onde atua na preparação de candidatos para alguns dos concursos públicos mais exigentes do país. Paralelamente, é fundador do Ser Mais Criativo, escola dedicada ao desenvolvimento da comunicação, da cultura e da vida, com foco na expressão autêntica e no protagonismo pessoal.