As cenas de importunação sexual que circulam hoje nas redes sociais não chocam apenas pela violência explícita. Elas expõem algo ainda mais profundo — e mais perturbador — sobre a forma como o corpo da mulher continua sendo tratado na nossa sociedade.
Quando o agressor justifica sua conduta dizendo “eu fiz porque eu quis”, ele não está falando apenas de desejo.
Ele está falando de poder.
Quando o consentimento é reduzido
Desejo, por si só, pressupõe reconhecimento do outro. Pressupõe limite. Pressupõe humanidade. O que vemos nessas cenas é o oposto disso. O que se manifesta ali é a certeza de que se pode atravessar o corpo de alguém sem considerar sua vontade, porque essa vontade simplesmente não importa.
E ela não importa porque, naquele instante, a mulher deixa de ser reconhecida como sujeito.
Só é possível fazer o que se quer contra o corpo de alguém quando esse alguém deixa de ser visto como pessoa.
Ninguém ignora a vontade de quem é reconhecido como humano. A violência sexual exige, antes de tudo, uma operação simbólica: retirar da mulher a condição de pessoa para transformá‑la em coisa.
É por isso que a violência sexual não é apenas física. Ela é, sobretudo, simbólica.
Ela começa muito antes do toque. Começa no momento em que a humanidade da mulher é suspensa para que apenas a vontade masculina prevaleça. Quando o corpo feminino passa a ser tratado como território disponível, como objeto acessível, como algo que pode ser tomado, invadido, usado.
O agressor não age apenas porque quer.
Ele age porque pode.
E pode porque aprendeu — social, cultural e historicamente — que o corpo da mulher é um espaço onde sua vontade pode se impor. Onde o “não” pode ser ignorado. Onde o silêncio pode ser interpretado como permissão. Onde a resistência pode ser lida como exagero.
Quem é visto como pessoa?
Isso nos leva à pergunta mais incômoda de todas:
quem decide, em cada cena, quem é sujeito e quem pode ser tratado como coisa?
Essa decisão não nasce no ato isolado. Ela é construída todos os dias. Está nas piadas, nos comentários, na culpabilização da vítima, na relativização da violência, na pergunta sobre a roupa, sobre o horário, sobre o comportamento.
Está também na forma como o direito, muitas vezes, reage. Quando minimiza, quando duvida, quando exige da mulher uma prova quase impossível de sua própria violação. Quando trata a violência como episódio e não como estrutura.
Como advogada de famílias, vejo diariamente os efeitos dessa lógica. Eles aparecem nos corpos, mas também nas histórias, nos silêncios, nas culpas indevidas, nas mulheres que aprendem a se encolher para sobreviver.
Enquanto a sociedade continuar decidindo que algumas pessoas podem ser reduzidas à condição de objeto, a violência continuará se repetindo. Não como exceção, mas como padrão.
Nomear isso importa.
Reconhecer isso importa.
Porque não é sobre desejo.
Nunca foi.
É sobre poder.
E sobre quem ainda acha que pode exercê‑lo sobre o corpo das mulheres.
Emilleny Lázaro
Advogada de Famílias
Emilleny Lázaro é advogada especializada na resolução de conflitos familiares e sucessórios. Mestra em Direito pela Universidade Federal do Tocantins, dedica sua atuação ao atendimento de mulheres e crianças, com foco em acolhimento e soluções práticas.