Análise Penal

O golpe do falso advogado: quando a confiança vira arma contra a própria advocacia

É como um vírus que veste beca: invade a esperança, falsifica sinais de vitória e contamina a confiança entre cliente e advogado.

Por Renato Bretas Ribeiro

Advogado de Concursos Públicos e Mentor.

O golpe do falso advogado não é exceção, nem episódio isolado.

É uma realidade dura, cotidiana e cada vez mais sofisticada, enfrentada tanto pela advocacia quanto pela sociedade.

Trata‑se de uma engrenagem criminosa organizada, que se alimenta de três elementos centrais: a exposição pública dos processos, a boa‑fé dos clientes e o prestígio construído por advogados que exercem a profissão com seriedade.

O roteiro do golpe é recorrente (e eficiente).

Golpistas utilizam nomes reais de advogados, fotos, logos, números de processos, linguagem jurídica técnica e informações públicas, para simular vitórias judiciais, inventar alvarás inexistentes e criar urgências artificiais.

Tudo é feito para parecer legítimo.

Tudo é feito para gerar confiança. E é exatamente essa confiança que se transforma em prejuízo.

Promessa de dinheiro rápido: o sinal que engana

Na advocacia real, o diálogo costuma ser outro.

O advogado liga, explica que a sentença foi desfavorável, que haverá recurso, que o processo continua, que é preciso aguardar. Não há promessa de dinheiro rápido, nem de vitória definitiva, nem de liberação em 24 horas.

No golpe, a narrativa é oposta: “Processo ganho”, “decisão final”, “alvará expedido”, “valor disponível”, desde que o cliente informe dados bancários e faça um PIX imediato para supostas taxas de liberação.

Esse contraste deveria ser óbvio.

Mas não é, porque o golpista atua justamente sobre a expectativa emocional de quem espera há anos por uma resposta da Justiça.

A fraude evoluiu: audiência falsa e IA imitando advogado

E o que se vê é um avanço nos métodos fraudulentos. Agora já há relatos de chamadas para participação das vítimas em audiências e o uso de Inteligência Artificial para simular uma conversa, de vídeo e voz, com o advogado. A tendência é que a sofisticação do golpe e o poder de convencimento sejam cada vez maiores.

Claro: o efeito disso é devastador.

A advocacia vai se tornando um terreno minado, em que o profissional correto, além de exercer seu trabalho técnico, precisa desenvolver habilidades extras para tentar proteger seus próprios clientes de fraudes que não criou.

A credibilidade, que sempre foi um dos maiores patrimônios da classe, passa a ser corroída diariamente. Clientes desconfiam de contatos legítimos, hesitam diante de orientações verdadeiras, questionam comunicações reais. O advogado sério paga o preço por um crime cometido por outro.

Resposta institucional tímida: até quando?

Enquanto isso, as respostas institucionais seguem tímidas e desproporcionais à gravidade do problema. O ônus da defesa acaba recaindo, em grande medida, sobre o próprio advogado, como se fosse sua obrigação individual impedir um esquema criminoso que atinge a OAB, o Judiciário e a sociedade.

Se nada mudar, o resultado é previsível: uma advocacia cada vez mais fragilizada, exposta e vulnerável, com profissionais e clientes à mercê de bandidos cada vez mais organizados.

Esse problema não será resolvido com alertas genéricos ou notas protocolares.
Ele exige ação coordenada e firme.

É urgente que OAB, poder público, plataformas digitais e sociedade civil atuem de forma articulada, com medidas efetivas, capazes de interromper a proliferação desses esquemas que vêm tornando o exercício da advocacia insustentável. Apenas confirmações de veracidade por site ou e-mail não resolve o problema. É uma questão de Direito Penal, deve ser tratada como um crime permanente, que se protrai no tempo. A conduta delituosa não irá cessar.

Sem essa mobilização, cada mensagem falsa, cada promessa de vitória forjada, representa mais do que um golpe financeiro. Representa o enfraquecimento estrutural de toda uma categoria profissional.

Ou todos enfrentam esse problema com seriedade, estrutura e ações concretas, ou o inaceitável será normalizado e, assim, teremos que advogar em meio ao caos, convivendo com fraudes diárias, como se o exercício da profissão, por si só, já não fosse um grande desafio.

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Renato Bretas Ribeiro

Advogado de Concursos Públicos e Mentor.

Renato Bretas construiu sua trajetória no Direito Público e Militar, com foco em concursos. Nas redes, interage de perto com os concurseiros e explica o universo jurídico com humor e clareza, unindo conteúdo útil, mentoria e atuação estratégica na advocacia digital.

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