Análise Profissional

Leitura, prática e formação jurídica: o que não pode faltar ao futuro profissional do Direito

Sem leitura, o jurista constrói argumentos como quem ergue casa sem alicerce. Leitura, estágio consciente e prática real são o tripé que sustenta uma formação jurídica sólida.

Por Guilherme Pupe

Desembargador Eleitoral do TRE/DF | Diretor | Presidente do Colégio Permanente de Juristas | Pós-doutor | Doutor e Mestre pelo IDP

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De longe, o maior erro cometido hoje por egressos das faculdades de Direito é a falta de carga de leitura. Falta o cultivo de um hábito que propicie conhecimento crítico e que permita a formulação de uma capacidade consistente de argumentação e de articulação do raciocínio jurídico.

Esse costume, infelizmente, tem se perdido. E isso é um grande diferencial. Quem cultiva o hábito da leitura, quem gosta de ler e leva isso adiante, adquire algo extremamente valioso para o exercício do Direito. Trata‑se de um elemento estruturante da formação jurídica, que impacta diretamente a qualidade da atuação profissional.

A importância do estágio e da escolha consciente

O estágio possui hoje uma relevância especial, sobretudo quando o estudante já possui alguma noção do caminho que pretende seguir dentro do Direito. A área jurídica é muito rica e oferece múltiplos campos de atuação. Um estágio realizado desde cedo em uma área pela qual se tenha predileção ou curiosidade tende a favorecer significativamente a formação.

Isso não significa que a escolha seja definitiva. Optar por uma área não impede que, mais adiante, o profissional transite por outras. No entanto, é importante ter em mente que muitos estágios práticos são extremamente segmentados e nichados, o que pode gerar uma experiência muito restrita, sem necessariamente se traduzir em aprendizado amplo aplicável a outras áreas.

Especialização e ambiente acadêmico plural

A especialização, especialmente quando possui um viés prático, desempenha papel relevante na formação profissional. Um dos seus diferenciais está no corpo docente formado por profissionais profundamente envolvidos com a prática jurídica no Brasil.

Além disso, a convivência acadêmica com discentes provenientes de diferentes áreas, segmentos e profissões enriquece de forma significativa o debate em sala de aula. Essa diversidade transforma a aula em um verdadeiro caldo cultural, permitindo múltiplas leituras sobre o Direito e sobre a atuação profissional.

Esse ambiente favorece tanto quem já possui experiência prática quanto, sobretudo, aqueles que ainda não tiveram contato direto com a realidade profissional, oferecendo a oportunidade de enxergar, simultaneamente, diversas perspectivas.

A centralidade da prática jurídica

O Direito é uma ciência profundamente enriquecida pela experiência prática. Isso é inevitável. A advocacia, os concursos públicos e outras trajetórias profissionais fornecem, para além das titulações, um portfólio teórico construído a partir da prática, que merece ser reconhecido.

Ainda assim, a ausência dessas oportunidades não torna inviável uma boa formação. É possível compensar essa lacuna por meio de estágios práticos, inclusive voluntários, como os realizados em defensorias públicas. Também é válido destacar a importância de iniciativas autodidatas, como o acompanhamento espontâneo de audiências públicas — especialmente audiências de instrução e julgamento.

Esse contato direto com o Direito praticado permite ao estudante manter uma relação viva com a realidade jurídica, indo além do Direito meramente teorizado.

O acesso contemporâneo à jurisdição

Hoje, não se pode ignorar a possibilidade de acompanhamento das atividades dos tribunais. Os grandes tribunais — Supremo Tribunal Federal, Tribunal Superior Eleitoral, Superior Tribunal de Justiça e tribunais estaduais — transmitem muitas de suas sessões de julgamento em tempo real.

Isso oferece ao estudante e ao profissional um verdadeiro cardápio de opções para se manter atualizado e em contato permanente com o Direito em aplicação concreta, ampliando significativamente as possibilidades de aprendizado.

Especialização e atividade jurídica: atenção aos critérios

As especializações podem ou não ser consideradas como atividade jurídica, dependendo do cargo público e da unidade da federação. No âmbito da magistratura, por exemplo, há resolução do CNJ que veda essa contagem. Já no Ministério Público Federal, a especialização é admitida como atividade jurídica.

O mesmo ocorre nos estados. Há defensorias e carreiras que admitem essa contagem e outras que não. Por isso, é essencial que o candidato analise com cuidado a legislação de regência e o edital do concurso, observando as especificidades de cada cargo e de cada ente federativo.

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Guilherme Pupe

Desembargador Eleitoral do TRE/DF | Diretor | Presidente do Colégio Permanente de Juristas | Pós-doutor | Doutor e Mestre pelo IDP

Guilherme Pupe é sócio do Mudrovitsch Advogados, com atuação em Constitucional, Administrativo e Civil, compliance e arbitragem. Pós-doutor pela Univ. de Granada (2022–2024), doutor (2021), mestre (2012) e especialista (2010) pelo IDP; graduado no UniCEUB (2008). Desembargador Eleitoral do TRE-DFT (2022–2026) e vice-presidente do CPJE. Professor no IDP/EDB, autor e palestrante.

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