Análise Penal

Quando o crime organizado tenta vestir a farda do Estado

Como um cupim na estrutura, o crime busca entrar pela porta do Estado: não para a farda, mas para o acesso a dados, decisões e rotinas que sustentam a segurança.

Por Luana Davico

Delegada/PC e Professora.

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O PCC cooptou e financiou uma mulher para que ela se tornasse delegada de polícia no Estado de São Paulo.

Uma foto, um aviso

A foto do casal, tirada em frente ao Palácio do Governo em 19 de dezembro, é simbólica. Segundo a própria polícia, o homem ao lado dela é um dos chefes da organização criminosa no norte do país.

Se ainda não vivemos em um narco‑Estado, estamos caminhando para isso.
E é importante dizer com clareza: isso não é um escândalo e muito menos novidade.

É óbvio que o crime organizado deseja dominar o país. E, dentro dessa lógica, infiltrar‑se nas instituições responsáveis por combatê‑lo é uma estratégia central. O objetivo nunca foi apenas ter “uma delegada”. O objetivo real era acesso a dados sensíveis da segurança pública, informações estratégicas que circulam dentro das estruturas do Estado.

É preciso salientar que, por anos, essa mulher foi policial militar no Estado do Espírito Santo. Ou seja, sua trajetória já passava pelo sistema de segurança pública.

Concurso ou estratégia?

E quando eu digo que, em concursos públicos, nem sempre passa o mais inteligente, mas sim quem tem a melhor estratégia, esse caso ilustra perfeitamente isso. Basta lembrar do episódio ocorrido em 28 de dezembro, quando ela, já investida no cargo de delegada, foi atuar como advogada em uma audiência de custódia — algo absolutamente proibido. E tudo isso foi filmado.

Detalhe ainda mais grave: tratava‑se da audiência de custódia de um integrante do PCC.

Quem falhou?

Diante disso, surge uma pergunta quase automática: a investigação do PCC em São Paulo falhou?

A resposta é não.

A investigação social em concursos policiais não se encerra com a posse. Ela se estende por até três anos, durante o estágio probatório. O sistema, ao menos formalmente, prevê mecanismos de controle.

Mas isso nos leva a uma questão muito mais inquietante:
será que é só na polícia que o PCC quer se infiltrar?
Ou pior: será que já não existem infiltrações em outros espaços, onde a investigação social efetivamente falhou, e nós sequer percebemos?

Direitos ou brecha?

Embora eu me considere garantista, isso não me impede de enxergar o oportunismo de quem instrumentaliza pautas legítimas. O princípio da presunção de inocência é fundamental, mas não pode ser utilizado como escudo automático para ignorar riscos evidentes à segurança institucional.

Prova disso é um caso recente: a Polícia Civil de Santa Catarina eliminou uma candidata casada com um traficante. O STJ entendeu que a exclusão teria sido ilegal, com fundamento no princípio da presunção de inocência.

Esse tipo de decisão exige reflexão profunda.
Garantias constitucionais são essenciais, mas não podem servir de porta aberta para a captura do Estado pelo crime organizado.

O desafio está exatamente aí: proteger direitos sem fragilizar instituições, preservar garantias sem entregar estruturas estratégicas a organizações criminosas.

Quando o crime tenta vestir a farda do Estado, o risco não é apenas jurídico.

É institucional.
E é democrático.

Luana Davico

Delegada/PC e Professora.

Luana Davico é Delegada de Polícia do DF, formada em Direito pela UFG, com pós em Direito Penal e Processo Penal. Atuou no MPGO (2012–2017) e hoje coordena e leciona, preparando futuros policiais com foco prático e claro.

 

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