Direito Civil

Quando receber R$ 50 mil via Pix vira litígio: decisão extingue obrigação de devolução

Moradora recebeu Pix de R$ 50 mil sem origem clara, tentou devolver e não conseguiu; juiz validou depósito judicial, extinguiu a obrigação e determinou prestação de contas.
Sorocaba (SP) Pix de R$ 50 mil Boa-fé e segurança Consignação e prestação de contas

Uma moradora de Sorocaba (SP) acionou o Judiciário para devolver um Pix de R$ 50 mil recebido de forma inesperada. Ao final, a obrigação de devolução foi considerada extinta após a validação de depósito judicial, diante da impossibilidade de identificar com segurança quem deveria receber o valor.

A decisão foi proferida pelo juiz de Direito Mário Gaiara Neto, da 9ª Vara Cível de Sorocaba, ao reconhecer que a autora adotou medidas concretas para devolver a quantia, mas não conseguiu realizar o estorno pelos canais adequados.

Pontos-chave

  • Pix de origem incerta entrou na conta da autora sem solicitação.
  • Houve procura por WhatsApp exigindo devolução imediata, o que aumentou a desconfiança.
  • Tentativa de devolução pela funcionalidade do Pix foi recusada pela instituição depositante.
  • Depósito judicial foi aceito e a obrigação de devolver foi declarada extinta.
  • Prestação de contas foi determinada; danos morais, negados.

Por que virou caso judicial?

O processo ganhou complexidade porque não foi possível apontar, com segurança, o real destinatário do dinheiro, além de surgirem indícios de anomalia bancária: a autora identificou registro de conta aberta em seu nome (e depois encerrada) sem solicitação.

Como o episódio começou

O caso teve início quando a autora recebeu um Pix de origem incerta, associado a pedido de resgate feito por terceiro em plataforma de apostas (Betano). No mesmo dia, passou a receber mensagens via WhatsApp de pessoa que alegava erro na transferência e exigia devolução imediata.

Desconfiada, a mulher buscou orientação bancária e tentou fazer a devolução por meio da funcionalidade específica do próprio sistema Pix. A operação, no entanto, foi recusada pela instituição depositante, impedindo a solução imediata.

Leitura prática: quando há cobrança insistente por canal informal e a devolução pelos meios oficiais não se concretiza, o risco de pagar ao destinatário errado aumenta — e a insegurança jurídica também.

Conta aberta sem autorização e pedido de esclarecimentos

Ao consultar o Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional, a autora afirmou ter localizado registro de conta bancária aberta em seu nome — posteriormente encerrada — sem solicitação. Diante do cenário, enviou notificações extrajudiciais às instituições financeiras envolvidas pedindo explicações sobre a transferência e sobre a conta.

Como considerou insuficientes as respostas recebidas, optou por ajuizar ação cumulando: consignação em pagamento, prestação de contas e indenização por danos morais.

O que é consignação em pagamento e por que foi aplicada

Entenda o conceito

Consignação em pagamento é o mecanismo que permite ao devedor se liberar da obrigação quando há dúvida sobre quem é o credor legítimo ou quando há recusa de recebimento. Em vez de devolver a alguém sem segurança, deposita-se o valor em juízo, para que o processo resolva a destinação correta.

Na sentença, o magistrado ressaltou que a consignação é meio legítimo de liberação quando há dúvida sobre o destinatário real do valor ou recusa do recebimento, nos termos do artigo 876 do Código Civil. Para o juiz, a autora demonstrou esforços efetivos para devolver o montante indevidamente recebido, mas esbarrou na recusa do depositante.

Resultado: obrigação de devolução extinta

Com a validação do depósito judicial, o juiz julgou procedente o pedido consignatório e declarou extinta a obrigação de devolução do Pix. O fundamento central foi a impossibilidade de identificar, com segurança, quem deveria receber os R$ 50 mil.

Prestação de contas: o que as instituições terão de explicar

O que deve ser esclarecido

  • Quais movimentações foram realizadas na conta apontada como aberta em nome da autora.
  • Por quem as movimentações foram realizadas.
  • Qual a destinação de eventual saldo existente no encerramento da conta.

O juiz reconheceu o direito da autora à prestação de contas em razão do registro de conta aberta sem autorização. A determinação busca recompor a trilha das operações e oferecer transparência sobre movimentações e encerramento, delimitando eventuais responsabilidades.

Danos morais: pedido foi negado

Apesar do êxito na consignação e na prestação de contas, a indenização por danos morais foi julgada improcedente. Assim, a sentença priorizou a solução jurídica para o valor indevido e a obrigação de detalhamento das movimentações, sem condenação indenizatória.

Linha do caso: leitura rápida

1
Crédito inesperado

Pix de R$ 50 mil é recebido pela autora, com origem incerta e referência a pedido de resgate de terceiro em plataforma de apostas.

2
Cobrança por WhatsApp

Pessoa afirma erro na transferência e exige devolução imediata, elevando a desconfiança sobre a legitimidade da demanda.

3
Tentativa de devolução falha

A autora busca o caminho oficial do Pix para devolver, mas a instituição depositante recusa a operação.

4
Indício de anomalia bancária

Consulta aponta conta aberta em seu nome (e depois encerrada) sem solicitação, levando a notificações extrajudiciais.

5
Sentença

Depósito judicial é validado; obrigação de devolução é extinta; prestação de contas é determinada; danos morais são negados.

Perguntas frequentes

Por que não devolver diretamente para quem mandou mensagem?

Porque a mensagem pode não vir do titular real do valor. Quando não há segurança sobre quem é o verdadeiro destinatário, a devolução direta pode gerar risco de pagamento a pessoa errada.

O que o depósito judicial resolve?

O depósito em juízo é uma forma de entregar o valor de maneira controlada, permitindo que a destinação correta seja discutida no processo. No caso, ele foi aceito e a obrigação de devolver foi considerada extinta.

Qual a utilidade da prestação de contas nesse contexto?

A prestação de contas exige esclarecimentos detalhados sobre movimentações e encerramento de conta atribuída ao titular, ajudando a identificar o que foi feito, por quem e para onde foi o dinheiro.

Por que o pedido de danos morais pode ser negado?

Porque nem todo transtorno é automaticamente indenizável. A sentença, neste caso, manteve a solução para o valor e determinou transparência bancária, mas não reconheceu indenização por dano moral.

Fonte: Migalhas

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