Direito Civil
Direito Empresarial

Contratos híbridos e a nova advocacia: estruturar risco antes de redigir cláusulas

Contratos contemporâneos reúnem múltiplas naturezas jurídicas e exigem do advogado atuação estratégica desde a negociação, não apenas redação técnica após o fechamento do negócio.

Por Fernanda Dantas

Advogada | Especialista em Demandas Complexas | Estratégia Processual | Empreendedora | OAB/DF 30.249 | Aluna EFAE

Os atos e negócios jurídicos transcendem gerações. Os contratos, instrumentos que os formalizam, acompanham essa evolução.

Do contrato verbal aos celebrados em ambientes digitais, entre legal ops e lawtechs, o advogado não permanece relevante, ele é essencial, para o cliente e para a própria realização da justiça, como já sinaliza a Constituição Federal de 1988.

Ocorre que os negócios se multiplicaram e se tornaram substancialmente mais complexos. Já não se estruturam a partir de uma única natureza jurídica. Os contratos contemporâneos são, em grande medida, híbridos, reunindo em um mesmo instrumento, por exemplo, elementos típicos de locação, cessão, financiamento e assunção de dívida.

Apesar dessa transformação, a prática jurídica permanece, em muitos casos, inalterada. A redação contratual ainda se ancora em modelos tradicionais, frequentemente incapazes de refletir a complexidade dos negócios que pretende disciplinar.

O resultado é a produção de instrumentos formalmente sofisticados, mas estruturalmente frágeis. A indefinição quanto ao regime jurídico aplicável não é enfrentada, é contornada. Cláusulas convivem sem coerência sistêmica, e a alocação de riscos, quando existente, é frequentemente implícita ou insuficiente.

A consequência é previsível: insegurança na execução, dificuldade interpretativa e transferência de conflitos ao Judiciário. Nesse contexto, o advogado que se limita à redação técnica não apenas se mostra insuficiente, passa a integrar o próprio problema.

A ausência de uma atuação orientada à estruturação do risco compromete a funcionalidade do contrato e esvazia seu potencial como instrumento de prevenção de litígios.

Superar esse descompasso exige mais do que atualização terminológica ou adesão a novas tecnologias. Exige uma mudança de abordagem, inclusive quanto ao momento de atuação do advogado.

Se o contrato é o instrumento destinado a antecipar conflitos, não faz sentido que o advogado seja chamado apenas após a definição dos termos negociais. Sua atuação tardia limita-se, muitas vezes, a revestir de forma jurídica decisões já tomadas, sem espaço para estruturar adequadamente riscos ou corrigir inconsistências.

A construção contratual deve deixar de ser um exercício predominantemente redacional para se tornar uma atividade de estruturação jurídica do próprio negócio, o que pressupõe a participação do advogado desde a fase de negociação. É nesse momento que se identificam as múltiplas naturezas envolvidas, se define o regime jurídico prevalente e se estabelecem, de forma consciente, os critérios de alocação de risco.

Não se trata de sofisticar a linguagem, mas de organizar o contrato a partir de sua lógica econômica e de seus pontos de tensão. Cláusulas não podem mais coexistir de forma isolada; devem compor um sistema coerente, capaz de antecipar conflitos e oferecer respostas operacionais.

Nesse cenário, o advogado deixa de atuar como mero redator e assume posição estratégica: a de agente responsável por traduzir complexidade em segurança jurídica.

A ausência do advogado na mesa de negociação não reduz custo, apenas posterga o conflito.


Fernanda Dantas

Advogada | Especialista em Demandas Complexas | Estratégia Processual | Empreendedora | OAB/DF 30.249 | Aluna EFAE

Fernanda Dantas é advogada atuante em Brasília, especialista em demandas complexas e estratégia processual. Empreendedora e entusiasta do esporte, pauta sua atuação pelo equilíbrio entre o rigor técnico, a criatividade e a busca contínua por conhecimento.

Quer escrever para a Lawletter?

Tem uma opinião jurídica, uma análise crítica ou uma reflexão relevante?
Sua análise pode virar coluna na Lawletter

As contribuições passam por curadoria editorial antes da publicação.

plugins premium WordPress

Não perca nenhuma notícia jurídica!

Receba as principais análises e atualizações do direito brasileiro direto no seu e-mail.