Leopoldo Heitor de Andrade Mendes (1922–2001) foi um advogado criminalista (penalista) que atuou no Rio de Janeiro e se tornou uma figura emblemática da cultura jurídica brasileira. A projeção veio tanto pela eloquência e pelas estratégias marcantes em plenário quanto pela associação a episódios de grande repercussão, atravessados por controvérsias e lacunas que nunca foram totalmente dissipadas.
Um dos casos mais lembrados é o chamado “Crime do Sacopã”, de 1952. Em 6 de abril de 1952, um jovem foi encontrado morto na Ladeira do Sacopã (RJ). Heitor apresentou uma testemunha à imprensa, e esse movimento acabou levando o oficial Alberto Bandeira à condenação. Décadas depois, conforme os registros do próprio caso, o processo prescreveu e passou a carregar suspeitas de manipulação de prova, reacendendo debates clássicos do processo penal sobre a confiabilidade de depoimentos, a leitura de evidências e o peso das versões construídas ao longo da investigação.
A biografia pública de Heitor também inclui um capítulo literal de “fora da lei”. Em 1957, ele foi acusado de peculato e falsificação de cheque. Segundo o relato, fugiu para a Argentina com a esposa e permaneceu no país até 1960, quando a sentença teria sido revogada, permitindo seu retorno após os desdobramentos judiciais.
Mas foi o desaparecimento de Dana de Teffé, em 1961, que consolidou de vez a aura de mistério em torno do nome. Dana era descrita como uma socialite milionária e viajava com Heitor em 29 de junho de 1961, pela Via Dutra. Ela teria sido a última pessoa vista com ele antes de desaparecer — e o corpo nunca foi encontrado, o que manteve o caso em debate histórico.
Nesse episódio, Heitor apresentou três versões diferentes sobre o que teria ocorrido. Ele foi preso, condenado, fugiu, foi recapturado e enfrentou quatro julgamentos no Tribunal do Júri. Ainda assim, mesmo sem a localização do corpo da vítima, acabou absolvido pelo júri popular e, ao final, teria sido liberado após a prescrição.
A combinação de eloquência, estratégias teatrais e casos polêmicos alimentou o apelido de “Advogado do Diabo” — uma marca que, até hoje, é lembrada como provocação jurídica e cultural. No plano do Direito, os episódios associados a Leopoldo Heitor continuam levantando a mesma pergunta que atravessa décadas: como ponderar provas inconclusivas, versões contraditórias e ausência de corpo em decisões do Tribunal do Júri? Mistério eterno ou falha do sistema — a discussão segue aberta.
Equipe Lawletter