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Como a “machosfera” saiu dos nichos da internet e chegou ao debate jurídico brasileiro

Termos antes restritos a comunidades online, passaram a ocupar mais espaço no debate público brasileiro nos últimos dias.

Créditos da imagem: 5PH/Fair Observer

Nos últimos dias, “machosfera” e “red pill” passaram a ocupar um espaço que antes não tinham no debate brasileiro, com presença mais constante nas timelines, no noticiário e também nas buscas na internet. Em março de 2025, a estreia da série Adolescência já havia levado o termo “incel” a um pico de interesse no Google, e aquele episódio acabou funcionando como um sinal do que viria depois. O vocabulário da misoginia digital começou a sair da bolha antes de chegar ao centro da agenda pública e agora reaparece acompanhado por investigação policial, resposta do governo e propostas legislativas.

A definição adotada pela ONU Mulheres descreve o ambiente denominado “machosfera” como um guarda-chuva para comunidades online que promovem versões cada vez mais estreitas e agressivas do que significa ser homem, sustentadas pela falsa ideia de que o avanço das mulheres ocorreu às custas dos direitos masculinos. O que deu escala a esse ecossistema foi a mudança de linguagem: o discurso misógino deixou de circular apenas em espaços identificados como extremistas e passou a aparecer em formatos mais leves, rápidos e vendáveis, com aparência de conselho amoroso, desenvolvimento pessoal, humor, ironia ou coaching de masculinidade.

Quando essa lógica encontra os algoritmos das plataformas, deixa de depender de comunidades fechadas e passa a operar como produto de massa. Um levantamento do NetLab-UFRJ para o Ministério das Mulheres identificou, no fim de 2024, 137 canais brasileiros no YouTube com conteúdo misógino que somavam 3,9 bilhões de visualizações, mais de 105 mil vídeos e diferentes estratégias de monetização. Em 2026, novo acompanhamento mostrou que 123 desses canais continuavam disponíveis, o que indica permanência, acúmulo e capacidade de adaptação em vez de simples explosões episódicas. Em um artigo publicado no Jornal da USP, o pesquisador Ergon Cugler descreve esse processo como uma captura organizada de jovens por redes de ódio que oferecem pertencimento e propósito em troca da adesão a discursos que desumanizam mulheres e corroem valores democráticos.

Créditos da imagem: Reprodução/Matrix

O salto mais visível aconteceu nesta semana, quando uma trend com vídeos de homens simulando socos, chutes e facadas contra mulheres em caso de rejeição afetiva se espalhou pelas redes e produziu uma reação em cadeia. A Advocacia-Geral da União acionou a Polícia Federal, a PF abriu inquérito, o Ministério da Justiça enviou ofício ao TikTok Brasil cobrando explicações sobre detecção e supressão de conteúdo misógino, e a plataforma passou a ser pressionada não apenas pelo conteúdo que hospeda, mas pelo modo como recomenda e distribui esse material. Quando o Estado começa a discutir preservação de dados, remoção de vídeos, moderação automatizada e responsabilidade algorítmica, o tema já mudou de patamar.

Esse movimento coincidiu com uma semana em que a violência contra mulheres já estava no centro da atenção pública, após o estupro coletivo de uma adolescente em Copacabana. Em nota publicada no dia 5 de março, o Ministério das Mulheres afirmou que o caso reforça a urgência de discutir consentimento, respeito e igualdade nas relações entre crianças, adolescentes e jovens. Não se trata de estabelecer uma relação direta entre um vídeo, uma comunidade digital e um crime específico, mas de reconhecer que esse tipo de conteúdo circula em um ambiente em que a humilhação da mulher aparece com frequência como piada, desafio, estética ou prova de virilidade. A repetição desse material nas redes, muitas vezes acompanhada de engajamento e monetização, ajuda a dimensionar o contexto em que esse debate ganhou força.

A entrada definitiva da machosfera na agenda pública aparece com clareza quando o vocabulário da internet passa a ser incorporado pelo texto legal. Em 6 de março, a deputada Duda Salabert apresentou o PL 988/2026, que altera o Código Penal para tipificar a promoção organizada de conteúdos que incitem violência, discriminação ou desumanização de mulheres no contexto de movimentos misóginos. O texto afirma de forma explícita que não pretende alcançar opinião individual nem discussão genérica sobre relações afetivas, mas estruturas organizadas que promovam ou incentivem violência e desumanização. Quatro dias depois, a deputada protocolou requerimento de urgência, sinal de que o debate havia saído dos comentários em rede e entrado no rito formal do Legislativo.

No Senado, projetos voltados à criminalização da misoginia voltaram a ganhar visibilidade nesta semana, o que reforça a percepção de que o Estado brasileiro passou a tratar de forma mais direta um fenômeno que, por anos, ficou à margem do debate público. A discussão já não se concentra em saber se a machosfera existe ou se seu vocabulário deve ser levado a sério. O foco agora está nos limites entre liberdade de expressão e incitação, na responsabilização de redes e influenciadores e na resposta legal a formas organizadas de violência simbólica que circulam como entretenimento ou aconselhamento.

Infográfico sobre violência contra mulheres
Clique para abrir o infográfico completo

Os dados ajudam a afastar uma leitura superficial do problema. Uma reportagem da Agência Brasil demonstrou que o envio de conteúdo misógino em 85 comunidades virtuais de redes de ódio cresceu quase 600 vezes entre 2019 e 2025, enquanto a SaferNet registrou alta de 220% nas denúncias de crimes online de misoginia entre 2024 e 2025. Na mesma semana, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou que o país registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica, com aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Não há uma relação direta entre cada postagem e cada crime, mas os números mostram que a violência digital de gênero e a violência letal contra mulheres avançam no mesmo período e exigem uma leitura mais cuidadosa do fenômeno.

Foi nesse ambiente que a machosfera deixou de ser tratada como ruído lateral da internet e passou a ser lida como problema público. O que antes circulava em nichos, fóruns e perfis especializados agora aparece em investigações, notas oficiais, projetos de lei e estatísticas de violência. A mudança não está apenas na popularização das palavras, mas no reconhecimento de que esse ecossistema produz efeito concreto sobre o debate público, sobre a circulação do ódio e sobre a forma como a violência contra mulheres é narrada, normalizada e consumida.


Cibelle Ferreira | Redação Lawletter

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